SAÚDE

Pediatras do Hospital Odilon Behrens pedem revisão da redução de profissionais

Vereador solicitou dados detalhados de atendimentos e sugeriu à comissão deliberar por indicação para suspender a medida

quarta-feira, 12 Agosto, 2026 - 17:15
Vereador e médicos reunidos em audiência pública

Foto: Letícia Oliveira /CMBH

Pediatras do pronto-atendimento do Hospital Odilon Behrens reivindicaram a revisão da redução dos plantonistas, apontando que o número de atendimento não é um critério que reflete a realidade do local, que atende diferentes níveis de complexidade. O tema foi discutido durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (12/8) pela Comissão de Saúde e Saneamento, a pedido de Dr. Bruno Pedralva (PT). A superintendente do hospital disse que tem uma equipe robusta para o número de crianças atendidas, trazendo dados de 2025 e 2026. Segundo ela, a média de atendimento por hora por profissional seria de menos de um paciente. Pediatras e o vereador questionaram as informações, apontando que números não incluem reavaliações ou encaminhamentos de outras clínicas, além da complexidade dos casos. Ao final da reunião, Dr. Bruno Pedralva solicitou novo estudo incluindo informações como tempo de espera para atendimento e número de encaminhamentos internos para pediatria. Ele também informou que irá propor que a comissão delibere sobre indicação para que a Prefeitura de Belo Horizonte suspenda a redução do número de pediatras até que o estudo detalhado seja apresentado.

“Recebemos relatos de que a diretoria do hospital tomou a decisão de reduzir o número de pediatras de plantão no pronto-socorro. Nos plantões diurnos, de seis para três profissionais; nos plantões noturnos, de quatro para três pediatras. E também com a figura de outro plantonista, que ficaria entre 10h e 22h, que é o momento que avaliam que tenha demanda maior de atendimento. Na prática, tivemos redução do número de pediatras de plantão”, disse Dr. Bruno Pedralva. 

No início da reunião, o vereador ainda destacou que o Hospital Odilon Behrens é uma referência em Belo Horizonte e “não é um pronto socorro como outros”, por atender quadros clínicos complexos, como doenças raras e casos de violência contra as crianças. “Número de atendimentos é um critério importante para dimensionar as equipes, mas não pode ser o único. A complexidade dos atendimentos também tem de ser computada”, afirmou o parlamentar. 

Complexidade dos atendimentos

A pediatra e diretora do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Ariete Domingues de Araújo, reforçou que o Hospital Odilon Behrens atende alta complexidade e é um hospital de referência. “Tivemos uma reunião com a gestão e [o dimensionamento das equipes] é sempre baseado em números de atendimento, mas temos de olhar a qualidade de atendimento”, disse. Ela ponderou que também é necessário considerar questões como férias e licenças dos profissionais. “Se deixa um plantão com três pediatras e tem uma de férias, já viram dois. Se um saiu de licença, e na maioria das vezes não se consegue fazer a reposição de imediato, fica um pediatra; então fica impossível”, exemplificou.

Pediatras que atuam no Hospital Odilon Behrens também apontaram preocupação. “Gostaria de fazer um apelo para que isso [a redução] seja revisto, porque somente a avaliação numérica dos plantonistas não reflete a nossa realidade”, disse Silmar Paulo Moreira, que trabalha no ambulatório de violência sexual.

Ludmila Machado Ferraz criticou a redução ser feita sem discussão com os profissionais e também o argumento sobre o número de atendimentos. Ela disse que a gestão computa apenas os atendimentos cujas fichas são feitas pela pediatria, quando há também atendimentos que são encaminhados de áreas como ortopedia, ginecologia e outras. 

“Várias subespecialidades do Odilon às vezes encaminham [pacientes] para nós para ter avaliação do pediatra, porque tem outras queixas associadas. Esses atendimentos não são computados, pois não saem da porta direto para a pediatra, saíram direto para a especialidade e depois foram para a pediatria”, explicou Ludmila Ferraz.

Ferraz também reforçou o fato de o local atender casos complexos e graves, que demandam mais tempo. “Tem que acolher a família, ouvir com atenção; a criança tem que ser examinada com muito mais cuidado, porque já passou por vários outros serviços e chega com cinco receitas diferentes e não tem solução para aquela dor, aquela doença. Então, são atendimentos muito mais complexos tanto da parte da medicina quanto da parte social”, disse. Ela também apontou que a falta de pediatras em postos de saúde e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) dificulta para toda a população, porque os atendimentos que poderiam ser resolvidos acabam avançando para situações mais graves. 

Equipe robusta

A superintendente do Hospital Metropolitano Odilon Behrens, Raquel Felisardo, disse estar surpresa com a audiência pública para debater a crise na pediatria do hospital. Ela avalia ter uma equipe robusta para o número de crianças que chegam para serem atendidas. Na porta do pronto-socorro, segundo ela, nunca houve seis pediatras durante o dia. “Temos na porta cinco e tiramos um. Tiramos um no sentido que não chegam mais cinco pediatras às 7h; chegam quatro pediatras às 7h e o outro profissional faz o horário das 10h às 22h”, disse. Já na escala noturna, eram quatro profissionais e agora são três.

“Quando mexemos na redução foi de um pediatra noturno, os demais continuam na porta, porque temos escalas”, disse a superintendente Raquel Felisardo.

Ela explicou que há a Unidade de Decisão Clínica (UDC), que funcionaria como “uma retaguarda para o pronto-socorro”, atendendo crianças com casos mais graves. A UDC tem 13 leitos e um pediatra, mais um médico de manhã e outro de tarde. Além disso, há a Emergência, na qual há um pediatra e outro médico para atender dez leitos. “A taxa de ocupação tanto da UDC quanto da emergência está dando 20%; então, dos dez leitos, tenho normalmente uma, duas, no máximo três crianças; isso foi ao longo de 2026 inteiro”, disse. Ela reforçou que o número de profissionais dessa “retaguarda do pronto-socorro” não foi alterada.

A superintendente também respondeu que se fosse olhar apenas para o número de atendimentos na porta, a redução seria drástica, mas sabe da importância do hospital para atender crianças em casos mais graves. Apresentando dados de 2025, Raquel Felisardo apontou que a média era de 94 pacientes por dia. “Dividido pelo quantitativo por profissional, dá menos de um paciente por hora para ser atendido por esse profissional de porta”, disse. Em relação ao atendimento neste ano, ela disse que o número foi menor, dando cerca de 0,7 pacientes por hora. 

Raquel Felisardo mostrou dados dos atendimentos no último domingo e na última segunda-feira, com 45 pacientes e 57 pacientes, respectivamente.  “Quando calculamos 45 pacientes, divididos por nove pediatras, é um quantitativo por hora que entendo que temos escala muito robusta”, sintetizou. 

Dr. Bruno Pedralva ponderou que dados desses dois dias “certamente" não traduziriam a demanda por atendimentos no pronto-socorro pediátrico do hospital. "A urgência tem variabilidade, tem dia que o plantão está muito cheio”, disse. Ele também perguntou se o número de atendimentos inclui as reavaliações, ao que a superintendente informou que não. “Por exemplo, vítima de violência que pode entrar por outro fluxo, como a maternidade, e vir para avaliar. Foram 210 atendimentos no ano; então, dá média de menos de um atendimento por dia”, disse Raquel Felisardo. 

“Então, objetivamente, esses números apresentados não incluem as reavaliações”, disse o vereador, que questionou se incluem encaminhamentos de outras clínicas. Raquel Felisardo informou que nessas situações os pacientes são encaminhados para UDC e para a emergência. 

Logo após a apresentação da superintendente, outra pediatra do hospital se manifestou. “Escutando o que a Raquel fala, eu fico pensando que temos o emprego dos sonhos, atendendo um paciente por hora e não temos nenhum problema, temos retaguarda, temos tudo”, disse Mysia Ferreira. Ela atua no local desde 1995 e elogiou o trabalho realizado pela equipe. Em relação aos dados, a pediatra disse que considera um ano atípico, pois houve, concomitante à sazonalidade, a greve nas escolas, apontando que um dos fatores que aumenta a transmissibilidade dos vírus é a transmissão escolar. 

“Ninguém está à toa, ninguém está vendo vídeo no celular. Quando não estamos trabalhando, estamos no ambiente de ensino, discutindo caso, tentando dar o melhor, fazer o melhor pelo paciente”, afirmou Mysia Ferreira.

Ludmila Machado Ferraz também criticou os dados apresentados pela superintendente, apontando que no último mês ficaram apenas dois plantonistas durante a manhã e, muitas vezes, dois plantonistas à noite. “A fala dela tem muitas coisas que não são reais, apesar de estar nas estatísticas das apresentações”, afirmou.

Encaminhamentos

Ao final da reunião, Dr. Bruno Pedralva solicitou para a superintendente do hospital que seja feito um novo estudo com dados sobre os atendimentos no pronto-socorro. Ele pediu que fossem incluídas as reavaliações, a divisão entre casos complexos e de baixa complexidade, o tempo de espera para atendimento em horários de pico e os encaminhamentos internos de outras clínicas do Odilon Behrens para a pediatria.

Dr. Bruno Pedralva ainda disse que irá propor para a Comissão de Saúde e Saneamento deliberar sobre uma indicação à prefeitura para suspender a redução do número de pediatras até que o estudo detalhado seja feito. Por fim, o vereador fez um apelo relatando situações precárias como médico plantonista na UPA. “Quando temos um pronto-socorro pediátrico que é um exemplo, que pediatras ensinam novos residentes, que atendem em tempo adequado, vamos querer desmontar serviço que é bom? Vamos nivelar por baixo?”, questionou. 

Superintendência de Comunicação Institucional

Audiência pública - Finalidade: debater a redução de pediatras nos plantões do Pronto Socorro do Hospital Odilon Behrens e o impacto no atendimento às crianças na rede SUS - 27ª Reunião Ordinária -  Comissão de Saúde e Saneamento