Blocos do Carnaval de BH cobram política pública permanente de valorização
Realizadores defendem investimentos e reconhecimento de que a festa é construída durante o ano inteiro
Foto: Denis Dias/CMBH
O crescimento do Carnaval de Belo Horizonte não foi acompanhado pela criação de políticas públicas permanentes para garantir sua sustentabilidade. Esse foi um dos principais apontamentos da audiência pública realizada na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) na manhã desta terça-feira (23/6). O encontro, solicitado por Juhlia Santos (Psol), aconteceu no âmbito da Comissão de Direitos Humanos, Habitação, Igualdade Racial e Defesa do Consumidor, e discutiu os impactos sociais, culturais e econômicos da festa na cidade, incluindo os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras da cultura e políticas de continuidade e fomento. Durante a audiência, representantes dos blocos defenderam que o Carnaval seja tratado como política cultural permanente, com planejamento contínuo, financiamento adequado e valorização dos trabalhadores responsáveis por sua realização. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio de representantes da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte S/A (Belotur) e da Secretaria Municipal de Cultura, reconheceu as reivindicações e disse que grupos de trabalho já estão em discussão para o Carnaval 2027; que os centros culturais podem vir a abrigar os ensaios dos blocos e que as subvenções devem ser antecipadas aos grupos carnavalescos.
Política pública e reivindicações históricas
Ao abrir o encontro, a vereadora Juhlia Santos ressaltou o crescimento da festa na capital, que saltou de 72 para 450 blocos nos últimos anos, e defendeu maior participação do poder público na estruturação da política carnavalesca. “Não podemos mais tratar o Carnaval apenas como turismo. Ele pode estar na Belotur, mas precisa ter um braço dentro da Secretaria Municipal de Cultura; precisa de uma política pública robusta”, afirmou a parlamentar.
Representantes dos blocos afirmaram que reivindicações históricas seguem sem solução. Presidente do "Então Brilha", Mariana Fonseca afirmou que os organizadores continuam discutindo os mesmos problemas há anos.
“Parece que não saímos do lugar, e continuamos a discutir a falta de recursos, de infraestrutura, falta de investimento permanente e falta de diálogo entre prefeitura e estado”, declarou Mariana Fonseca.
Imprevisibilidade e valorização dos blocos locais
A ausência de espaços adequados para ensaios e armazenamento de instrumentos também foi apontada como um dos principais entraves. Para Gisele Duarte, do bloco Abalôcaxi, os grupos carnavalescos sobrevivem graças à dedicação de seus integrantes. “Os blocos sobrevivem ao trabalho voluntário e operam na incerteza, instabilidade e sem previsibilidade”, afirmou. Segundo ela, o protagonismo dos blocos locais tem sido ameaçado pelo crescimento da participação de atrações externas.
“Quem construiu a festa perde espaço para as grandes atrações, que se beneficiam da estrutura”, pontuou Gisele Duarte.
A necessidade de valorização dos blocos afros e periféricos também foi destacada. Sambista e representante de coletivos culturais da periferia, Solange Caetano relatou as dificuldades enfrentadas para manter projetos sociais realizados durante todo o ano. “No último ano, não conseguimos a subvenção e só saímos porque a comunidade nos ajudou”, contou. Ela também denunciou episódios de intolerância religiosa enfrentados por grupos carnavalescos em territórios periféricos.
Catadores de materiais recicláveis.
O debate abordou ainda as condições de trabalho dos catadores de materiais recicláveis. Coordenadora técnica da ReciclaBelô, Juliana Gonçalves apresentou dados da operação realizada durante o Carnaval de 2026. Segundo ela, 465 catadores participaram da iniciativa e recolheram mais de 51 toneladas de resíduos em quatro dias de festa. A representante criticou a lógica de remuneração baseada apenas na venda dos materiais coletados.
“Não é razoável que as pessoas coletem resíduos sem remuneração, dizendo que ele será pago com a venda de material. Isso é exploração”, afirmou Juliana Gonçalves.
O vereador Pedro Patrus (PT) defendeu a ampliação da participação dos catadores e ambulantes na construção das políticas para o Carnaval. Ele destacou avanços recentes, como a oferta de acolhimento infantil para filhos de trabalhadores durante a festa, mas avaliou que ainda há desafios importantes a serem enfrentados.
Grupos de trabalho já discutem o Carnaval de 2027
Representantes da prefeitura reconheceram parte das demandas apresentadas e afirmaram que medidas estão em andamento. Michele Silva, assessora da Secretaria Municipal de Cultura, destacou a atuação de grupos de trabalho intersetoriais e a possibilidade de utilização dos centros culturais para ensaios dos blocos. O diretor da Belotur, Bruno Cassemiro, informou que, com a participação dos blocos, as discussões para os editais do Carnaval de 2027 já começaram, e que os recursos das subvenções devem ser adiantados a partir da construção antecipada do regulamento da festa. O representante da Belotur ainda anunciou a intenção de viabilizar um espaço permanente para armazenamento de materiais utilizados pelos grupos carnavalescos.
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