Famílias da Ocupação Resistência Negra pedem para continuar em suas casas
PBH tem ação judicial para reintegração de posse de área que seria parque. Especialistas defendem solução que mantenha moradores
Foto: Tatiana Francisca/CMBH
Famílias que vivem na Ocupação Resistência Negra, no Aglomerado Morro das Pedras, Região Oeste da capital, pedem que a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) as deixe continuar em suas casas. Moradores do local foram ouvidos na manhã desta terça-feira (14/4), na Câmara Municipal de BH. O encontro, solicitado por Juhlia Santos (Psol), ocorreu pela Comissão de Direitos Humanos, Habitação, Igualdade Racial e Defesa do Consumidor, e reuniu moradores, representantes do Executivo e especialistas. O debate apontou divergências sobre o destino da área. Enquanto os moradores querem continuar no local, a PBH mantém, desde 2019, uma ação para reintegração de posse da ocupação, que hoje abriga cerca de 30 famílias. A alegação do Executivo é que a área oferece risco e está destinada à criação de um parque para preservação ambiental. Especialistas, porém, acreditam que com diálogo é possível manter as moradias, ficando o cuidado e a preservação da área a cargo das próprias famílias. Uma audiência de conciliação está marcada para o fim deste mês de abril.
Poder público deve promover regularização
Ao abrir a discussão, Juhlia Santos destacou que cerca de 480 mil pessoas vivem em aglomerados urbanos em Belo Horizonte, enquanto há imóveis vazios na cidade. Ela ressaltou que a área da Ocupação Resistência Negra está classificada como Zona Especial de Interesse Social (Zeis 1), o que reforçaria o dever do poder público de promover a regularização fundiária. A vereadora também criticou a condução de ações recentes da prefeitura, apontando falta de diálogo e defendendo que a implantação de um parque na região não pode ocorrer sem considerar o direito à moradia das famílias.
“A criação de um parque não pode anteceder o direito de moradia dessas famílias”, afirmou Juhlia Santos.
Falta de diálogo e truculência nas ações
Moradores relataram dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, e criticaram a atuação do poder público. Liderança comunitária, Odaleia Silva Paulino afirmou que vive na ocupação desde 2016, e que encontrou no local a alternativa para deixar o aluguel. Ela relatou episódios de violência durante ações de retirada e cobrou maior presença do Executivo. “A prefeitura precisa nos acolher e não chamar a polícia. Não temos água e luz regularizadas, mas temos onde morar e acesso a escola e ao posto de saúde”, disse.
Integrante da ocupação, Lucas Natam Lourenço relatou que a tentativa de retirada dos moradores ocorreu sem aviso prévio. “Pedimos prazo para buscar alternativa, mas não houve negociação”, disse. Ele contou que chegou a ser preso durante a tentativa de reintegração de posse, e lembrou que a área, antes da ocupação, estaria abandonada, sendo inclusive utilizada como ponto de tráfico de entorpecentes.
Preservação, permanência das famílias e conciliação
Membro da ONG Arquitetos Sem Fronteiras, o professor Eduardo Bittencurt defendeu uma solução que contemple a permanência dos moradores e a preservação ambiental da área. Ele questionou a caracterização da área pela PBH como de risco, destacando que o terreno possui estabilidade, com moradias já consolidadas. O professor contou que apenas parte da ocupação, seis moradias, estaria na área do parque, e cobrou que a PBH insira os moradores na política habitacional da cidade.
“A solução seria manter os moradores lá, dando-lhes condição de cuidar do local por meio de soluções sustentáveis, consolidando o parque junto com as moradias existentes”, defendeu Bittencurt.
Representando a Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel), o diretor de Regularização e Monitoramento, Marcelo Campos, afirmou que parte da área é considerada, sim, de risco, o que motivou remoções anteriores. Segundo ele, cerca de 30 famílias vivem no local, mas há uma audiência de conciliação, junto ao Ministério Público Estadual, prevista para o próximo dia 28 de abril, no âmbito do processo em curso.
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