SUSTENTABILIDADE

Economia circular pode "ressignificar" resíduos da indústria da moda em BH

Integração de políticas, incentivo fiscal e educação para o consumo consciente foram alguns caminhos apontados em audiência pública

segunda-feira, 23 Fevereiro, 2026 - 13:45
parlamentares e participantes presentes em audiência pública na câmara municipal de bh

Foto: Tatiana Francisca/CMBH

A União Europeia vai proibir a destruição de roupas, acessórios e calçados não vendidos por grandes empresas a partir de julho deste ano. Mas o que isso tem a ver com a moda que se faz hoje em Belo Horizonte? Para a engenheira Sâmara Merrighi, que atua na capital no ramo da moda circular, é um "recado claro" para o futuro. Audiência pública realizada na manhã desta segunda-feira (23/2) pela Comissão Especial de Estudo Gastronomia, Moda e Turismo debateu a questão dos resíduos provenientes da indústria da moda na capital mineira. Solicitado por Fernanda Pereira Altoé (Novo) e Bruno Miranda (PDT) - respectivamente a relatora e o presidente do colegiado -, o encontro reuniu setor produtivo, entidades de classe e sociedade civil, que defenderam ações integradas para transformar o desafio ambiental em oportunidade econômica. A indústria da moda já é apontada como a segunda no mundo em geração de resíduos, e o passivo ambiental é uma preocupação para o setor. Entre os principais desafios estão a integração de ações e políticas; o incentivo fiscal e a educação para o consumo. O colegiado deverá realizar novos encontros com a participação de outros atores, como as cooperativas de recicláveis.

Políticas integradas e incentivo fiscal

Representante da Frente da Moda Mineira, Giovanna Penido destacou que é preciso antecipar soluções e liderar processos em parceria com o poder público. Segundo ela, o tratamento dos resíduos deve ser incorporado ao Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos e ao projeto de logística reversa (PL 533/2025) em tramitação na Casa.

“Mais que um problema, é uma oportunidade”, afirmou ela.

Fausto Izac, do Arranjo Produtivo Local (APL) do Vestuário Horizonte das Gerais, explicou que a entidade atua em 35 municípios da Região Metropolitana, abrangendo cerca de 37 mil empresas e associações, sendo 70% do setor comercial. Para Thais França Giordano, representante da Comissão de Direito da Modada Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB-MG), produtos feitos a partir de reciclagem ainda chegam ao consumidor com preço elevado, e o incentivo fiscal, especialmente aos pequenos produtores, é essencial para ampliar a adesão às práticas sustentáveis.

Pesquisa e educação para o consumo

Formação e capacitação para o setor também foram pontos destacados. Fernando Barros, do Senac Minas, contou que a instituição já formou mais de 5 mil alunos em cursos profissionalizantes, e defendeu que a reciclagem esteja integrada ao processo de aprendizagem. Já Ricardo Cotini, diretor de Educação Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, afirmou que legislação adequada não basta sem formação, e defendeu que o profissional da moda seja "criativo, ético e estético".

Valéria Said, do Fórum da Moda, defendeu investimento em pesquisa, lembrando que a reciclagem têxtil é "complexa", e deve ser pensada desde a escolha dos materiais a serem reciclados. Ela também propôs ampliar o debate público sobre as dimensões política, ética e estética da moda criativa, de modo a envolver pesquisadores, universidades e especialistas.

“Acreditamos em uma moda esteticamente admirável, eticamente sustentável, justa, viável e criativa”, afirmou Valéria Said.

Propostas e experiências práticas

Entre as sugestões apresentadas, Jorge Peixoto, diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico para Vestuário, defendeu a criação de editais para utilização de subprodutos têxteis, fomento a feiras de brechós, implantação de pontos de doação no Barro Preto, e projeto de lei para que o poder público adquira ao menos 10% de materiais recicláveis.

A estrategista em moda circular Adélia Galantini apontou que iniciativas existem, mas ainda estão "desconectadas". Ela informou que está em construção a primeira cooperativa voltada a receber resíduos têxteis na cidade. “Não é simples, mas precisamos começar. As coisas já estão acontecendo”, afirmou.

Sâmara Merrighi defendeu relatórios de transparência e programas educacionais voltados à moda circular, citando que a Europa já proibiu a destruição de roupas novas. Alessandra Alkmim, da Câmara de Comércio Minas Gerais/Chile, informou que a entidade vai criar um eixo de economia circular e promover intercâmbio com o Chile, onde restos de tecido já são transformados em tijolos.

Vice-presidente do colegiado, Helton Junior (PSD) lamentou a ausência de representantes da Prefeitura de Belo Horizonte. “Se o resíduo não tiver destinação adequada, a 'bronca' será para o poder público", disse. O colegiado acertou a realização de novas audiências públicas para trazer outros atores do setor, como prefeitura e cooperativas de catadores.

Superintendência de Comunicação Institucional

Audiência pública para debater sobre os resíduos provenientes da indústria da moda em Belo Horizonte. 8ª Reunião - Comissão Especial de Estudo