SEMINÁRIO

Autores falam de planejamento na comunicação e mudança do eleitorado

Painel do III Seminário de Comunicação Pública ouviu especialistas que participaram de livro sobre marketing político

quinta-feira, 23 Julho, 2026 - 15:45
Pessoa lê livro Marketing Político no Brasil durante o Seminário

Foto: Tatiana Francisca/CMBH

“Às vezes o candidato vira e fala: como faço com minhas redes sociais? Eu digo: não faço a menor ideia; primeiro preciso fazer diagnóstico, te conhecer, saber qual seu perfil, o que você já fez para depois entender como vou fazer sua comunicação. A comunicação vem por último”, disse o jornalista, professor universitário na PUC-MG e consultor político João Henrique Faria. Ele, que atua há mais de 20 anos no marketing político, é um dos coautores do livro “O Marketing Político no Brasil 2 - Eleições: análises, estratégias e tendências da comunicação política", lançado pelo Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (Camp). A obra foi tema do último painel do III Seminário de Comunicação Pública, realizado pela Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) nesta quinta-feira (23/7). Além de Faria, participaram do debate o jornalista, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política e também coautor do livro Fabrício Menezes e o jornalista e superintendente-executivo da Associação Mineira de Municípios (AMM), Lu Pereira

A superintendente de Comunicação Institucional da CMBH, Raquel Vasconcelos, foi a mediadora da mesa. “Até aqui tivemos grandes palestrantes: falamos sobre Inteligência Artificial, pudemos refletir sobre comunicação pública, relacionamento com a imprensa, falamos da confiança nas instituições e, principalmente, da democracia”, disse. Na sequência, ela apresentou a obra da Camp, uma instituição formada por consultores, estrategistas, jornalistas, publicitários e pesquisadores de diversas áreas de todas as regiões do país.

Diagnóstico e planejamento

João Henrique Faria, que escreveu o capítulo “Diga não ao improviso”, defendeu a necessidade de primeiro realizar planejamento e diagnósticos. “Quando falo ‘diga não ao improviso’ quero dizer ‘vamos diagnosticar primeiro, vamos fazer entrevista em profundidade com o candidato e com algumas lideranças para entender o processo e como o candidato é. Vamos fazer um planejamento’”, explica. 

A superintendente perguntou se, às vezes, quem contrata o profissional quer uma receita pronta, sem entender o processo, ao que Faria concordou. “O que interessa é o que dá like, o que faz sucesso, as trends. Eu não estou muito preocupado com isso, eu quero ter uma trend própria, quero saber qual perfil, identidade e como ele [candidato] vai se conectar com esse eleitor específico”, disse, reforçando a necessidade de estudar fatores como a realidade do local, o perfil do candidato, de seus adversários, dos eleitores.

Em relação ao uso de IA, ele avalia que a ferramenta pode agregar no trabalho, mas destacou a importância do fator humano. “Temos que adequar o que a IA sugere ao que é a realidade que você conheceu pelo diagnóstico, pelo planejamento, pelas pesquisas”. Em relação às estratégias para as campanhas deste ano, Faria avalia que as redes sociais precisam conseguir atenção e proximidade.

“Busca proximidade para criar intimidade. Quando consegue criar intimidade na rede, você detecta as pessoas que conseguiu atingir e tenta conversar diretamente e transformar essas pessoas em embaixadores, em defensores da sua campanha”, disse.

Mudanças no eleitorado

Questionado sobre as alterações no comportamento do eleitorado, tema de seu capítulo no livro, Fabrício Menezes elencou mudanças demográficas, religiosas e de hábitos de consumo de mídia no eleitorado brasileiro.

“Os últimos anos foram de profundas transições no perfil do eleitorado do nosso país e isso reflete diretamente nas preferências políticas do eleitor”, sintetizou. 

Ele menciona a desaceleração da taxa de natalidade e, por consequência, o envelhecimento da população, argumentando que a população mais velha vota diferente dos mais jovens. Ele também aponta uma transição religiosa, mencionando que até 1990 mais de 90% dos brasileiros se consideravam católicos e hoje este percentual é de 55%, com cerca de outros 30% evangélicos e 15% dizem não ter religião. “Essa mudança na religião tem impacto profundo e tem que ser analisada dentro dos processos de planejamento de comunicação pública e de comunicação eleitoral”, defende.

O painelista ainda traz um terceiro elemento de mudança focado na passagem do consumo de informação por meio da imprensa tradicional para as redes sociais. “Antes, nos informávamos pelo jornal, revista, TV – e, por mais que tenhamos nossas críticas em relação a essas empresas de mídia, existia certa regulamentação e o contraditório. Hoje, nas redes sociais, você se informa através daquele com quem já tem afinidade de ideias. Não se dá o direito ao contraditório e criam-se as bolhas, e você não consegue sair daquele pensamento porque você só se alimenta daquilo”, disse.

Desafios nas prefeituras

O superintendente-executivo da AMM avaliou o contexto das prefeituras mineiras, dizendo que muitas vezes a comunicação precisa resolver crises e é culpabilizada por equívocos. “Sentimos que não tem nem planejamento, nem diagnóstico, não porque o assessor não quer fazer, mas porque não há condição para ele fazer. A comunicação tem que resolver de última hora, não tem como planejar”, diz, comentando que muitas vezes há apenas um trabalhador na equipe. “Ao invés de [a comunicação] ser coração da gestão, vira solução de crise, fica só gerenciando problemas. Nós queremos inverter isso”, disse. 

Sobre o livro

Após a primeira edição do livro “Marketing Político no Brasil”, lançada em 2022, o Camp reuniu novamente especialistas associados ao clube para aprofundar o debate sobre desafios, estratégias e transformações das campanhas eleitorais.

A segunda edição tem foco no ambiente eleitoral, abordando as dinâmicas das campanhas modernas, o impacto das novas tecnologias, das redes sociais, da inteligência artificial, das mudanças no comportamento do eleitor, entre outros temas. 

Superintendência de Comunicação Institucional

III Seminário de Comunicação Pública da CMBH